Mortalidade infantil no Brasil: um gradiente que persiste
A taxa nacional ronda 12,6 por mil nascidos vivos — mas esconde uma distância de duas vezes entre o Sul e o Norte/Nordeste. Cruzando SINASC e SIM.
Resumo
Combinando nascidos vivos do SINASC com óbitos de menores de 1 ano do SIM, estimamos a Taxa de Mortalidade Infantil (TMI) por UF. A média nacional de ~12,6‰ convive com extremos que vão de ~9‰ a ~20‰, expondo um gradiente socioespacial persistente.
Dados e métodos
A Taxa de Mortalidade Infantil (TMI) — óbitos de menores de 1 ano por mil nascidos vivos — é um dos indicadores mais sensíveis de desenvolvimento e de qualidade da atenção materno-infantil. Seu cálculo combina duas fontes: o numerador (óbitos de menores de 1 ano) do SIM e o denominador (nascidos vivos) do SINASC, ambos por município/UF de residência da mãe.
Apresentamos a TMI por UF para o ano mais recente com ambas as bases consolidadas (2022). A TMI nacional situou-se em 12,6 por mil — posição intermediária no contexto latino-americano e ainda distante das menores taxas mundiais (abaixo de 3‰).
O gradiente Norte–Sul
A média nacional é uma abstração. A desagregação por UF revela amplitude de ~1,9 vez entre os extremos — de 9,8‰ (Santa Catarina) a 18,8‰ (Roraima). O gradiente acompanha de perto renda, saneamento e cobertura de pré-natal, e separa nitidamente Sul/Sudeste do Norte/Nordeste.
| UF | TMI (‰) |
|---|---|
| Roraima (RR) | 18,8 |
| Amapá (AP) | 18,1 |
| Sergipe (SE) | 17,6 |
| Acre (AC) | 17,2 |
| Piauí (PI) | 15,8 |
| — Brasil — | 12,6 |
| Espírito Santo (ES) | 10,8 |
| Rio Grande do Sul (RS) | 10,5 |
| Paraná (PR) | 10,3 |
| Distrito Federal (DF) | 10,1 |
| Santa Catarina (SC) | 9,8 |
Fonte: SIM (óbitos <1 ano) e SINASC (nascidos vivos), 2022. Cinco maiores e cinco menores UFs. Elaboração: Saúde em Dado.
Evitabilidade e sinais na porta de entrada
Parte da mortalidade infantil é evitável por intervenções conhecidas e de baixo custo: pré-natal adequado, atenção qualificada ao parto e vacinação. O componente neonatal (primeiros 28 dias), hoje majoritário, depende sobretudo da assistência ao parto e às primeiras horas de vida.
Os próprios dados do SINASC antecipam risco: baixo peso ao nascer (<2.500 g), prematuridade (<37 semanas) e cobertura de sete ou mais consultas de pré-natal variam fortemente entre municípios e ajudam a explicar diferenças na TMI. A plataforma disponibiliza esses indicadores por município, permitindo focalizar a ação.
Limitações
A TMI municipal é instável em localidades com poucos nascimentos; por isso a apresentamos por UF. O SINASC tem defasagem de consolidação maior que o SIM, limitando o ano mais recente disponível. E o sub-registro de óbitos infantis, historicamente maior no Norte/Nordeste, pode atenuar o gradiente real — ou seja, a desigualdade verdadeira tende a ser ainda maior que a medida.
Referências e fontes
- BRASIL. Ministério da Saúde. SINASC e SIM — microdados 2021–2023. DATASUS.
- Saúde em Dado. mart_mortalidade_infantil_uf e mart_natalidade_municipio (v3.1.0). saudeemdado.com/nascimentos.
- RIPSA. Indicadores e Dados Básicos para a Saúde no Brasil (IDB): conceitos e aplicações. 2ª ed.
- França EB et al. Mortalidade infantil no Brasil: tendências e desigualdades. Rev Bras Epidemiol.
Sobre o autor
Pedro Fernandes
- · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
- · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
- · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)
Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.