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Vulnerabilidade e mortalidade: o paradoxo do sub-registro

Seria de esperar que municípios mais vulneráveis tivessem maior mortalidade. O dado mostra correlação fraca e até negativa — e a explicação é metodológica.

PF

Pedro Fernandes

06 de maio de 2026 · 7 min de leitura

Resumo

Cruzando um índice-proxy de vulnerabilidade social (Censo 2022) com a taxa de mortalidade padronizada em 3.089 municípios, encontramos correlação de Pearson de aproximadamente −0,18. Argumentamos que o resultado revela menos sobre saúde e mais sobre a qualidade do registro de óbitos.

Os determinantes sociais da saúde preveem que pobreza, baixa escolaridade e falta de saneamento se traduzam em pior saúde — e, portanto, maior mortalidade. Ao cruzar nosso índice-proxy de vulnerabilidade social (composto por analfabetismo e ausência de água encanada no Censo 2022, via z-score) com a mortalidade padronizada de 2023, esperávamos correlação positiva.

O que encontramos foi uma correlação de Pearson de cerca de −0,18: fraca e na direção oposta. Em vez de descartar o achado, ele merece ser explicado — e é aqui que a análise se torna interessante.

Três explicações plausíveis

Primeiro, sub-registro de óbitos. Municípios mais vulneráveis, sobretudo no Norte e Nordeste, historicamente captam menos óbitos no SIM. Menos óbitos registrados produzem taxa mensurada artificialmente baixa — um viés que pode inverter a relação verdadeira.

Segundo, a padronização por idade. Áreas vulneráveis tendem a ser demograficamente mais jovens; ao padronizar, removemos o efeito idade, mas não corrigimos a subnotificação. Terceiro, garbage codes: causas mal definidas (capítulo R da CID-10) são mais frequentes onde a infraestrutura de informação é precária.

A lição

Este é um exemplo didático de que correlação não é causalidade — e de que um dado 'limpo' pode esconder um viés sistemático. A leitura honesta não é 'vulnerabilidade protege'; é 'a mortalidade medida é menos confiável justamente onde a vulnerabilidade é maior'. O sinal a investigar é a qualidade do registro, não um efeito protetor inexistente.

Reconhecer o limite do índice também é parte do rigor: trata-se de um proxy de duas dimensões do Censo 2022, não do IVS oficial do IPEA. A incorporação do índice oficial está no roadmap e tende a refinar — não a anular — esta discussão.

Referências e fontes

  1. Saúde em Dado. Cruzamento vulnerabilidade × mortalidade. saudeemdado.com/tendencias.
  2. IBGE. Censo Demográfico 2022 (alfabetização e abastecimento de água).
  3. Szwarcwald C.L. et al. Busca ativa de óbitos e nascimentos no Nordeste e na Amazônia Legal. Ministério da Saúde.
Como citar: Pedro Fernandes. Vulnerabilidade e mortalidade: o paradoxo do sub-registro. Saúde em Dado, maio de 2026. Disponível em: https://saudeemdado.com/artigos/vulnerabilidade-mortalidade-paradoxo-subregistro/. Dados: DataSUS e IBGE (domínio público).

Sobre o autor

Pedro Fernandes

  • · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
  • · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
  • · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)

Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.