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Excesso de mortalidade no Brasil (2020–2024): o que sobrou da pandemia

Comparando o observado ao esperado pela média 2015–2019, estimamos 702 mil óbitos em excesso no biênio pandêmico — e analisamos o retorno gradual ao patamar histórico.

PF

Pedro Fernandes

10 de fevereiro de 2026 · 8 min de leitura

Resumo

O excesso de mortalidade é a métrica mais robusta para medir o impacto total de uma crise sanitária, pois independe da causa declarada. Construímos um baseline 2015–2019 ajustado por população e quantificamos o excesso mensal por UF e Brasil de 2020 a 2024.

Durante emergências sanitárias, a contagem direta de mortes por uma causa específica subestima o impacto real: há subdiagnóstico, sobrecarga dos serviços e mortes indiretas. O excesso de mortalidade — diferença entre os óbitos observados e os esperados na ausência da crise — contorna esses vieses e é hoje o padrão internacional de avaliação.

Nossa estimativa do esperado parte da média de óbitos do mesmo mês civil no período 2015–2019, multiplicada pela razão entre a população do ano e a população média do baseline. É um método transparente e replicável, deliberadamente simples; não modela tendência secular nem mudanças na estrutura etária além do ajuste populacional — limitações que declaramos explicitamente.

O biênio 2020–2021

O excesso concentrou-se em 2020 e 2021, somando aproximadamente 702.871 óbitos acima do esperado no agregado nacional — magnitude compatível com as estimativas independentes publicadas para o período. Os picos mensais acompanham as ondas da pandemia, com destaque para o primeiro semestre de 2021, o mais letal da série.

A desagregação por unidade federativa, disponível na plataforma, revela forte heterogeneidade regional no tempo e na intensidade — reflexo de diferenças em estrutura etária, acesso a leitos, momento de circulação viral e cobertura vacinal.

2022–2024: normalização com ressalvas

A partir de 2022, o excesso recua de forma consistente, aproximando-se de zero — indício de retorno ao regime pré-pandêmico. Contudo, a interpretação do ano mais recente exige cautela: dados de 2024 ainda são preliminares e sujeitos a revisão pelo Ministério da Saúde, e parte da tendência de longo prazo reflete melhora histórica na captação de óbitos pelo SIM.

Por que isso importa

O excesso de mortalidade é um indicador-síntese de resiliência do sistema de saúde. Mantê-lo monitorado, com séries longas e abertas, permite avaliar não só pandemias, mas ondas de calor, colapsos assistenciais e o efeito de políticas públicas. A reprodutibilidade — qualquer pessoa pode recalcular a partir dos microdados oficiais — é o que separa vigilância de opinião.

Referências e fontes

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. SIM — Sistema de Informações sobre Mortalidade. Microdados 2015–2024.
  2. Saúde em Dado. mart_excesso_uf_mes (baseline 2015–2019). saudeemdado.com/tendencias.
  3. Karlinsky A., Kobak D. Excess mortality during the COVID-19 pandemic: World Mortality Dataset. eLife, 2021.
Como citar: Pedro Fernandes. Excesso de mortalidade no Brasil (2020–2024): o que sobrou da pandemia. Saúde em Dado, fevereiro de 2026. Disponível em: https://saudeemdado.com/artigos/excesso-mortalidade-pos-pandemia/. Dados: DataSUS e IBGE (domínio público).

Sobre o autor

Pedro Fernandes

  • · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
  • · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
  • · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)

Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.