Excesso de mortalidade no Brasil (2020–2024): o que sobrou da pandemia
Comparando o observado ao esperado por uma tendência 2015–2019, estimamos cerca de 643 mil óbitos em excesso no biênio pandêmico — e analisamos o retorno ao patamar histórico.
Resumo
O excesso de mortalidade é a métrica mais robusta para medir o impacto total de uma crise sanitária, pois independe da causa declarada. Construímos um baseline de tendência 2015–2019 — que capta crescimento e envelhecimento da população — e quantificamos o excesso mensal por UF e Brasil de 2020 a 2024.
Durante emergências sanitárias, a contagem direta de mortes por uma causa específica subestima o impacto real: há subdiagnóstico, sobrecarga dos serviços e mortes indiretas. O excesso de mortalidade — diferença entre os óbitos observados e os esperados na ausência da crise — contorna esses vieses e é hoje o padrão internacional de avaliação.
Nossa estimativa do esperado vem de uma tendência linear ajustada a cada mês civil no período 2015–2019, projetada para o ano-alvo. Diferente de uma simples média do baseline, ela capta o crescimento e o envelhecimento da população — que elevam o número esperado de óbitos ano a ano —, evitando superestimar o excesso nos anos recentes. É um método transparente e replicável; sua principal limitação é assumir que a tendência pré-pandemia teria continuado (não modela harvesting nem mudanças bruscas de estrutura etária).
Resultados: excesso por ano
O excesso concentrou-se em 2020 e 2021, somando 643.482 óbitos acima do esperado no agregado nacional — magnitude compatível com as estimativas independentes para o período (~660–680 mil; World Mortality Dataset, OMS). O pico foi o primeiro semestre de 2021, o mais letal da série.
A partir de 2022 o excesso recua de forma consistente e 2024 fica essencialmente em zero, indicando retorno ao regime pré-pandêmico. A desagregação por UF, na plataforma, revela forte heterogeneidade regional — reflexo de estrutura etária, acesso a leitos, momento de circulação viral e cobertura vacinal.
| Ano | Excesso (óbitos) | % sobre o esperado |
|---|---|---|
| 2020 | 192.739 | +14,1 |
| 2021 | 450.744 | +32,6 |
| 2022 | 144.541 | +10,3 |
| 2023 | 48.065 | +3,4 |
| 2024 (prelim.) | −9.018 | −0,6 |
| 2020–2021 | 643.482 | — |
Fonte: SIM/DataSUS; esperado por regressão linear 2015–2019 por mês civil. 2024 preliminar e sujeito à extrapolação; ver análise de sensibilidade. Elaboração: Saúde em Dado.
2022–2024: normalização com ressalvas
A partir de 2022, o excesso recua de forma consistente, aproximando-se de zero — indício de retorno ao regime pré-pandêmico. Contudo, a interpretação do ano mais recente exige cautela: dados de 2024 ainda são preliminares e sujeitos a revisão pelo Ministério da Saúde, e parte da tendência de longo prazo reflete melhora histórica na captação de óbitos pelo SIM.
Por que isso importa
O excesso de mortalidade é um indicador-síntese de resiliência do sistema de saúde. Mantê-lo monitorado, com séries longas e abertas, permite avaliar não só pandemias, mas ondas de calor, colapsos assistenciais e o efeito de políticas públicas. A reprodutibilidade — qualquer pessoa pode recalcular a partir dos microdados oficiais — é o que separa vigilância de opinião.
Referências e fontes
- BRASIL. Ministério da Saúde. SIM — Sistema de Informações sobre Mortalidade. Microdados 2015–2024.
- Saúde em Dado. mart_excesso_uf_mes (baseline 2015–2019). saudeemdado.com/tendencias.
- Karlinsky A., Kobak D. Excess mortality during the COVID-19 pandemic: World Mortality Dataset. eLife, 2021.
Sobre o autor
Pedro Fernandes
- · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
- · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
- · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)
Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.