Metodologia
Esta página documenta integralmente como os indicadores são produzidos, para permitir avaliação crítica e reprodução independente. O processamento é feito por scripts abertos e versionados em scripts/: pipeline_v2.py (mortalidade e população) e pipelines dedicados para dengue (SINAN), internações (SIH), nascimentos (SINASC) e os recortes de internação por agravo/hospital.
1. Fontes de dados
- Óbitos 2022–2024 — SIM/DataSUS, CSVs nacionais do OpenDataSUS (
DO22OPEN–DO24OPEN). - Óbitos 2015–2021 — SIM/DataSUS, arquivos
.dbcpor UF/ano do FTP oficial (SIM/CID10/DORES), convertidos com a biblioteca abertadatasus-dbc. Total da série: mais de 13 milhões de óbitos não fetais. - População total — IBGE: Estimativas anuais (SIDRA t/6579), Censo 2022 (t/4709); 2023 por interpolação linear Censo↔Estimativas 2024.
- População por idade — Censo 2022 (SIDRA t/9514), agregada em 8 faixas etárias por município.
- Malha municipal e cadastro — IBGE (APIs de localidades e malhas).
- Descrições CID-10 — tabela oficial
CID10.DBFdo FTP do SIM.
2. Critérios de inclusão e derivações
- Óbitos fetais excluídos (
TIPOBITO=1), convenção de mortalidade geral; - Município de residência do falecido (
CODMUNRES); - Causa básica truncada à categoria CID-10 de 3 caracteres; capítulos (I–XXII) pelas faixas oficiais;
- Idade decodificada do campo composto
IDADE(dígito 4 = anos; 5 = 100+; 0–3 = menor de 1 ano; demais = ignorada). Faixas: <1, 1–4, 5–14, 15–29, 30–44, 45–59, 60–74, 75+; - Local do óbito (
LOCOCOR): 1 = hospital; 3 = domicílio; - Dados de 2024 preliminares, sujeitos a revisão pelo MS.
3. Granularidade por período
Para caber em infraestrutura gratuita sem sacrificar o essencial, a base publica detalhe demográfico completo a partir de 2022 (capítulo × sexo × faixa etária) e, para 2015–2021, totais e marginais (por capítulo, por sexo e por faixa — sem cruzamentos entre eles). Os marts de causa (3 caracteres) e as séries mensais por UF cobrem todos os anos.
4. Taxa padronizada por idade
Método direto: a taxa específica de cada faixa etária do município é ponderada pela estrutura etária de uma população padrão — aqui, a do Brasil no Censo 2022. Isso remove o efeito da composição etária e torna municípios comparáveis (um município envelhecido não aparece "pior" só por ser envelhecido).
- Óbitos com idade ignorada são redistribuídos pro-rata entre as faixas conhecidas do mesmo município/ano;
- Para anos ≠ 2022, a população por faixa é a estrutura do Censo 2022 escalada pelo total municipal do ano (aproximação documentada — censos municipais por idade não existem anualmente);
- Calculada para o total de causas (capítulo = TOTAL, sexo = total).
5. Intervalos de confiança (IC95%)
A taxa bruta acompanha IC95% pelo método gamma (Poisson exato): limite inferior = qgamma(0,025; d)/pop, superior = qgamma(0,975; d+1)/pop. Em municípios pequenos o intervalo é largo — o painel sinaliza população < 10 mil hab. com ⚠ para evitar leituras indevidas de taxas instáveis.
6. Excesso de mortalidade
Para cada UF (e Brasil), o esperado do mês m do ano a vem de uma tendência linear ajustada ao período 2015–2019, por mês civil: regredimos os óbitos daquele mês contra o ano (mínimos quadrados, 5 pontos) e projetamos para a. Isso captura tanto o crescimento populacional quanto o envelhecimento — que elevam o número esperado de óbitos ano a ano —, corrigindo um viés do método anterior (média 2015–2019 × razão populacional), que ignorava a tendência secular e por isso superestimava o excesso nos anos recentes. Excesso = observado − esperado; método transparente e replicável.
Efeito da correção (Brasil): o pico pandêmico permanece robusto (2020–2021 ≈ 643 mil óbitos em excesso, ~8% abaixo do método anterior), mas o "excesso persistente" de 2022–2023 encolhe muito — era em boa parte artefato da tendência não modelada — e 2024 fica próximo de zero. Cautela com 2024: a extrapolação é menos confiável no extremo da série e os dados de 2024 ainda são preliminares (subcontagem que puxa o observado para baixo) — não interpretar o valor literalmente.
Limitações remanescentes: a extrapolação linear assume que a tendência pré-pandemia teria continuado e não modela harvesting (deslocamento de mortalidade).
Robustez (padronização por idade). Testamos uma variante do esperado padronizada por idade, usando a população por idade/UF/ano da projeção do IBGE (revisão 2018). Ela estima o pico pandêmico em ~505 mil — abaixo do nosso valor (643 mil) e do consenso de estimativas independentes (~680 mil) — e gera excesso fortemente negativo em 2023–2024. Nossa primeira hipótese foi o denominador: a projeção 2018 superestima a população (o Censo 2022 a revisou para baixo) e a série pós-Censo tem uma descontinuidade em 2022.
Teste de convergência. Para isolar a causa, reconciliamos o denominador — interpolando o total populacional por UF entre os Censos 2010 e 2022 (removendo o overcount e o degrau; a população de 2020 cai de 211,8 para ~200,9 milhões) — e recomputamos o excesso. Ele subiu, mas não convergiu: permaneceu em ~530 mil, ainda ~18% abaixo da tendência. Ou seja, o denominador é um fator, mas não o todo — parte do gap é metodológica(como cada método projeta o esperado sob envelhecimento acelerado). Por isso retivemos o método de tendência, que tem a melhor concordância com as estimativas independentes e não depende do denominador. Scripts e séries de ambas as análises estão no repositório.
7. Validação automática
- Totais anuais conferidos contra os volumes oficiais do SIM (ex.: 2015 = 1.264.175; 2022 ≈ 1,54M);
- Subtotais (linhas TOTAL) conciliáveis com qualquer recorte da API;
- Perfil por capítulo compatível com a literatura (circulatórias > neoplasias > respiratórias);
- Checagens executadas também em CI (GitHub Actions) a cada atualização.
8. Limitações conhecidas
- Qualidade de registro e cobertura do SIM variam regionalmente e melhoraram ao longo do tempo — parte das tendências longas reflete melhora de captação;
- Garbage codes (ex.: R99) não são redistribuídos entre causas;
- A taxa padronizada usa estrutura etária fixa (Censo 2022) escalada — aproximação para anos distantes de 2022;
- O baseline do excesso não modela tendência de longo prazo;
- 2024 preliminar; revisões do MS alteram os números do último ano.
9. Dengue (SINAN)
- Fonte: SINAN/DataSUS, arquivos nacionais
DENGBR{AA}.dbc(FINAIS e PRELIM). 2024 corresponde à maior epidemia já registrada (6,6 milhões de casos prováveis) — número conciliável com os boletins do Ministério da Saúde. - Caso provável = notificação não descartada (
CLASSI_FIN ≠ 5), convenção da vigilância epidemiológica; - Caso grave = dengue com sinais de alarme ou grave (
CLASSI_FIN11, 12) ou, no padrão legado, FHD/SCD (3, 4); - Óbito por dengue =
EVOLUCAO = 2; - Município de residência (
ID_MN_RESI) e semana epidemiológica pela data dos primeiros sintomas (SEM_PRI); - Incidência = casos prováveis por 100 mil hab.;letalidade = óbitos / casos prováveis;
- Em anos recentes a classificação ainda está em andamento, o que pode reduzir descartes.
10. Internações hospitalares (SIH/AIH)
- Fonte: SIH/DataSUS, arquivos
RD{UF}{AAMM}.dbc(AIH aprovadas, rede SUS). Cobre apenas internações pagas pelo SUS — não inclui rede privada/suplementar; - Município de residência (
MUNIC_RES); causa pelo diagnóstico principal (DIAG_PRINC), agrupado em capítulos CID-10; - Permanência média = soma de
DIAS_PERM/ nº de internações; - Mortalidade intra-hospitalar =
MORTE/ internações; - Custo = valor total aprovado (
VAL_TOT); custo médio = valor / internações; - 2024 preliminar; meses podem estar incompletos no processamento mais recente.
- Confundimento por cobertura suplementar (importante): a base só enxerga internações pagas pelo SUS. Cerca de um quarto da população tem plano de saúde (ANS), concentrado em municípios mais ricos e urbanos. Logo, internações SUS por 100 mil habitantes não são comparáveis entre municípios sem considerar a fração coberta por planos — um valor baixo pode refletir alta cobertura privada, não menos adoecimento. Vale para internações/100k, ICSAP e a visão hospitalar.
- Mortalidade hospitalar é taxa bruta, sem ajuste de risco: reflete fortemente o perfil de casos (case-mix) de cada hospital — um terciário de alta complexidade tende a mortalidade maior que uma maternidade. Não comparar hospitais por mortalidade bruta como se fosse qualidade; a razão ajustada por case-mix (HSMR) está na §14.
11. Vulnerabilidade social (proxy, Censo 2022)
Para permitir cruzar saúde com desigualdade, calculamos um índice-proxy de vulnerabilidade social por município, a partir de dois indicadores oficiais e atuais do Censo 2022 (IBGE/SIDRA):
- Taxa de analfabetismo (15 anos ou mais) — tabela SIDRA 9543;
- % de domicílios sem ligação à rede geral de água — tabela SIDRA 6803.
Cada indicador é padronizado por z-score(z = (x − μ) / σ) e o índice é a média dos dois z-scores, reescalada de 0 a 100 (maior = mais vulnerável); os municípios são classificados em quartis (Q1 = menos vulnerável … Q4 = mais vulnerável).
Transparência — o que este índice é e o que não é: trata-se de um proxy transparente, reproduzível e atual (2022), não do IVS oficial do IPEA (Atlas da Vulnerabilidade Social), que combina 16 indicadores em três dimensões e tem ano-base 2010. Usamos apenas duas dimensões disponíveis municipalmente no Censo 2022 (a renda per capita municipal de 2022 ainda não foi liberada). O método de composição por z-score segue a linha do LabSUS. Incorporar o IVS oficial do IPEA está no roadmap.
12. Internações evitáveis (ICSAP) e fluxo de pacientes
- ICSAP — Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária: classificamos cada internação do SIH (2024) pelo diagnóstico principal e marcamos as condições da Lista Brasileira de ICSAP (Portaria SAS/MS 221/2008), em aproximação no nível de CID-10 de 3 caracteres (hipertensão, diabetes, ICC, pneumonias, asma/DPOC, gastroenterites, ITU, etc.). A proporção de ICSAP é um indicador-proxy da qualidade da atenção básica: quanto maior, mais internações que bom acesso à atenção primária poderia ter evitado. A aproximação por 3 caracteres difere marginalmente da lista oficial (que tem exceções em 4 caracteres) e tende a incluir um pouco a mais (leve sobrecontagem).
- Gasto potencialmente evitável (estimativa): nº de internações ICSAP × custo médio das internações por condições sensíveis (≈ R$ 1,5 mil/internação, calculado a partir das próprias condições no SIH — não da média geral, que é inflada por cirurgia/UTI). É uma estimativa de ordem de grandeza, não valor contábil.
- Sinalização de outlier (▲): um município só é marcado como acima da média do recorte quando o limite inferior do IC95% (método de Wilson)da sua proporção de ICSAP supera essa média — com piso de 200 internações. Isso evita confundir ruído de amostra pequena com sinal real.
- Leitura com equidade: ICSAP alto e gasto evitável não são, por si, "má gestão" do município — frequentemente refletem subfinanciamento e barreiras de acesso à atenção básica. São indicadores de sistema, não de culpa local.
- Fluxo intermunicipal de pacientes — o SIH registra o município de residência (
MUNIC_RES) e o de internação (MUNIC_MOV). Cruzando os dois, mapeamos para onde os moradores de cada município se internam (fluxos intermunicipais com 5+ internações em 2024), revelando dependência de polos regionais e evasão da rede local. A ideia segue a linha do LabSUS.
13. Agravos traçadores e visão hospitalar (SIH 2024)
Além do recorte por capítulo, isolamos condições traçadoras no nível de CID-10 de 3 caracteres (diagnóstico principal), com internações, óbitos, permanência e custo por município:
- Diabetes (E10–E14); AVC/cerebrovascular (I60–I69); infarto (I21–I22); insuficiência cardíaca (I50);
- Asma (J45–J46); DPOC (J40–J44); pneumonia (J12–J18);
- Depressão (F32–F33); esquizofrenia e outras psicoses (F20–F29); transtornos por álcool/drogas (F10–F19);
- Traumatismo cranioencefálico (S02, S06, S07).
Causas externas — limitação: acidentes de transporte (códigos V) não entram, porque na AIH o diagnóstico principal registra a natureza da lesão (S/T), não o mecanismo (V). As causas externas ficam representadas pelo TCE.
Visão hospitalar (CNES): agregamos as internações por estabelecimento (≥ 12 internações), com volume, permanência, mortalidade bruta, custo médio e capítulo predominante. Os hospitais são identificados pelo código CNES — o nome do estabelecimento não consta nos arquivos RD. Não estimamos ocupação de leitos: ela não deriva de forma confiável da AIH (exigiria o cadastro de leitos do CNES).
14. Mortalidade ajustada (HSMR), permanência esperada e projeção de demanda
Página Visão hospitalar. Três indicadores adicionais por estabelecimento (CNES), a partir do mesmo SIH 2024 já usado nas seções 10–13.
HSMR (Hospital Standardized Mortality Ratio) — padronização indireta. Para cada hospital, os óbitos esperados são a soma, por estrato (faixa etária × capítulo CID-10), do número de internações do hospital naquele estrato multiplicado pela taxa de mortalidade nacional do mesmo estrato. HSMR = óbitos observados / óbitos esperados. HSMR acima de 1 indica mortalidade acima do esperado dado o case-mix do hospital; abaixo de 1, o inverso. Faixas etárias: <1, 1–4, 5–14, 15–29, 30–44, 45–59, 60–69, 70–79, 80+ (idade só é considerada quando o campo COD_IDADE indica anos; demais casos entram como <1 ano).
Limiar de estabilidade — óbitos esperados < 5: hospitais abaixo desse valor são marcados como instáveis (⚠), não ocultados. É a regra geral de epidemiologia para razões padronizadas (SMR/HSMR): com esperado < 5, a razão fica hipersensível a um único óbito a mais e o intervalo de confiança exato de Poisson deixa de ser confiável. Estudos específicos de HSMR por vezes usam corte mais conservador (ex.: 20 óbitos esperados) — mas nesses estudos o hospital é excluído do relatório. Optamos por não excluir: hospitais pequenos continuam no mart, apenas sinalizados como instáveis, coerente com o princípio de não ocultar unidades pequenas do dado público (mesma lógica do IC95% em municípios pequenos, §5).
Permanência esperada (LOS). Para cada diagnóstico (CID-10, 3 caracteres), calculamos a mediana nacional de dias de internação e comparamos à mediana do hospital para o mesmo diagnóstico. Por volume, não guardamos a duração individual de cada internação — a mediana é aproximada por um histograma de faixas de dias (0-1, 2-3, 4-7, 8-14, 15-21, 22-30, 31-60, 61+), tomando o ponto médio da faixa onde a frequência acumulada cruza 50%. Hospitais com menos de 30 internações no diagnóstico não entram (ruído).
Projeção de demanda. Tendência linear sobre a série mensal de internações de cada hospital — o mesmo método de regressão usado no excesso de mortalidade (§6), aplicado por hospital em vez de por UF. A faixa de incerteza é indicativa (previsão ± 1,96 × desvio-padrão dos resíduos do ajuste), não um intervalo de predição formal. Hospitais com menos de 24 meses de histórico recebem confianca="baixa": uma tendência calculada sobre poucos pontos é instável — sinalizada, não ocultada.
O que não fazemos, e por quê: não estimamos risco de readmissão ou reinternação por paciente. A AIH pública não tem identificador estável de paciente (removido por LGPD) — ligar duas internações à mesma pessoa exigiria dado que não é público. Preferimos declarar essa limitação a produzir uma métrica que pareça precisa sem sustentação nos dados abertos.
15. Arquétipos de saúde municipal (k-means)
Agrupamos municípios (população ≥ 20 mil) em cinco perfis por k-meanssobre três dimensões padronizadas por z-score: mortalidade padronizada por idade (2023), vulnerabilidade-proxy (Censo 2022) e internações por 100 mil hab. (2023). Cada município recebe um rótulo interpretável (ex.: "mortalidade alta, vulnerabilidade média, muita internação"), exibido no boletim. Método de normalização z-score + k-means inspirado no LabSUS.
Cuidado com a falácia ecológica: clusters, o cruzamento vulnerabilidade × mortalidade e demais associações desta base são municipais (agregadas). Uma associação no nível do município não implica relação no nível do indivíduo, nem causalidade — servem para descrever padrões e levantar hipóteses, não para inferir risco individual.
16. Distância até os pares em internações evitáveis (ICSAP)
Traduz o indicador ICSAP na pergunta que um gestor de fato faz: quanto estou acima de municípios comparáveis, e o que isso representa?
Métrica. Usamos a proporção de internações que são sensíveis à atenção primária (pct_icsap), não a taxa por habitante. A taxa por 100 mil é confundida pelo acesso: um município onde as pessoas não conseguem internar tem taxa baixa sem que a atenção primária seja boa. A proporção pergunta outra coisa — "das internações que de fato ocorreram, quantas eram evitáveis?" — e é bem menos sensível a isso.
Pares. A referência é a mediana do arquétipo de saúdedo município (agrupamento k-means por mortalidade × vulnerabilidade × internações, seção 14); onde não há arquétipo, usa-se faixa populacional × região. Comparar com a média nacional seria injusto: municípios diferem em estrutura, não apenas em gestão. Municípios com menos de 100 internações no ano ficam fora do cálculo da mediana do grupo (proporção instável), mas recebem a própria comparação sinalizada.
Conversão. As internações acima dos pares são (pct_icsap − mediana dos pares) × internações totais. Custo e permanência por internação vêm dos agravos traçadores da Lista Brasileira presentes na base (asma, DPOC, pneumonia, diabetes, insuficiência cardíaca e doença cerebrovascular). Esses seis pendem para o lado caro da lista — condições baratas como gastroenterite, infecção urinária e anemia não estão representadas —, então o valor em reais é um teto, não uma média fiel.
O que este número não é. Quatro limites que precisam acompanhar qualquer citação:
- Não é economia disponível. Alcançar a mediana exige investir em atenção primária — mais equipes, mais acompanhamento de condições crônicas —, não cortar. O valor dimensiona o problema; não é caixa a resgatar.
- Nem toda ICSAP é evitável. A Lista Brasileira reúne condições sensíveis à atenção primária: boa cobertura reduz, não zera. Por isso a referência é a mediana dos pares, e nunca zero.
- A associação é ecológica. Descreve um padrão municipal agregado — não risco individual, não relação causal.
- Proporção alta pode ser efeito de acesso restrito. Onde faltam leitos, a internação eletiva desaparece e a fatia de ICSAP sobe mecanicamente. Cruze com oferta hospitalar antes de concluir que a atenção primária falha.
Disponível na view mart_icsap_pares da API pública, no boletim municipal e na ferramenta MCP icsap_distancia_dos_pares.
17. Privacidade e células de contagem pequena
Nenhum microdado individual é publicado: o banco recebe apenas agregados (município × período × categoria). Não há registros individuais, datas exatas de óbito, nem qualquer chave que permita ligar dois eventos à mesma pessoa.
Sobre células pequenas. Em recortes finos (município × capítulo CID × sexo × ano) existem cerca de 206 mil células com 1 a 4 óbitos. Optamos deliberadamente por não suprimi-las, e é importante explicitar o porquê: a fonte primária — os microdados do SIM, publicados pelo próprio Ministério da Saúde no OpenDataSUS — contém registros individuais com município de residência, sexo, idade, escolaridade, raça/cor e CID-10 de 4 caracteres. Ou seja, o dado de origem é substancialmente mais granular e mais identificável do que qualquer agregado aqui publicado. O próprio DATASUS oferece o TABNET, ferramenta pública que produz exatamente essas tabulações de forma interativa.
Nesse contexto, suprimir células pequenas ofereceria uma aparência de proteção sem ganho real de privacidade, enquanto destruiria justamente a informação dos municípios pequenos — que são os menos servidos pelas ferramentas existentes e os que mais precisam de dados acessíveis. A regra que seguimos é outra e, entendemos, mais honesta: nunca publicar nada mais granular do que a fonte pública de origem.
Isso não elimina a cautela analítica: contagens pequenas geram taxas instáveis. Por isso toda taxa bruta vem com IC95% e há alerta explícito para municípios com menos de 10 mil habitantes (seção 5).