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643 mil, não 702 mil: como a escolha do baseline muda a história da pandemia

Corrigir o esperado pelo envelhecimento reduz o excesso pandêmico e quase zera o 'excesso persistente' de 2022–2024. Mas testar a alternativa mais sofisticada revelou por que ela falha no Brasil — e por que o método mais simples é o mais robusto.

PF

Pedro Fernandes

29 de junho de 2026 · 9 min de leitura

Resumo

O excesso de mortalidade é a métrica-síntese do impacto de uma crise, mas depende inteiramente do 'esperado'. Mostramos como trocar um baseline de média por um de tendência corrige um viés de envelhecimento (excesso 2020–2021: 702.871 → 643.482) e faz o 'excesso persistente' pós-pandemia encolher. E documentamos uma análise de sensibilidade: a variante padronizada por idade subestima o excesso (~505 mil) porque o denominador populacional anual do Brasil é problemático — expondo por que o método que não usa população é o mais confiável.

Quantos brasileiros morreram a mais por causa da pandemia? A resposta parece uma questão de contar mortes, mas na verdade depende de uma escolha metodológica raramente examinada: o que teria sido o 'normal'. Excesso de mortalidade é a diferença entre os óbitos observados e os esperados na ausência da crise — e todo o peso recai sobre esse 'esperado'.

Nossa estimativa inicial usava um baseline simples: a média de óbitos de cada mês em 2015–2019, ajustada pelo crescimento da população. É transparente, mas tem um defeito: ignora que a população brasileira envelhece. Mais idosos significam mais óbitos esperados a cada ano — e um baseline que não capta isso subestima o esperado nos anos recentes, superestimando o excesso.

A correção: de média para tendência

Substituímos a média por uma tendência linear ajustada a cada mês civil de 2015–2019 e projetada adiante. Essa tendência embute empiricamente tudo o que crescia na mortalidade de base — inclusive o envelhecimento — sem precisar modelá-lo explicitamente.

O efeito é revelador. O pico pandêmico permanece robusto: o excesso de 2020–2021 passa de 702.871 para 643.482 óbitos — uma redução de cerca de 8%, ainda plenamente compatível com as estimativas internacionais independentes (~660–680 mil). A história da pandemia não muda.

O que muda é o depois. Pelo método antigo, o Brasil parecia carregar um 'excesso persistente' em 2022 e 2023. Pela tendência, esse excedente encolhe drasticamente — de 260 mil para 145 mil em 2022, de 152 mil para 48 mil em 2023 — e 2024 fica essencialmente em zero. Em outras palavras: boa parte do 'excesso persistente' era um artefato de não descontar o envelhecimento, não um efeito real da pandemia.

O teste que quase inverteu tudo — e por que não inverteu

A epidemiologia clássica recomendaria ir além: padronizar por idade, aplicando taxas de mortalidade por faixa etária à estrutura populacional de cada ano. Testamos essa variante usando a população por idade da projeção do IBGE de 2018. Ela deveria ser superior — e produziu números drasticamente menores: excesso pandêmico de apenas ~505 mil, e excesso fortemente negativo a partir de 2023.

Antes de adotar o resultado 'mais sofisticado', investigamos a discrepância. E o problema não era o método, era o denominador. A projeção de 2018 superestima a população brasileira — o Censo 2022 revisou o total para baixo em cerca de 8 a 11 milhões de pessoas. Uma população idosa inflada infla o número esperado de óbitos e, portanto, esconde o excesso. Reescalar para o total pós-Censo não resolve: a série do Censo introduz uma descontinuidade em 2022 que distorce os anos ao redor.

A conclusão é contraintuitiva e importante: no Brasil de 2015–2024, o dado populacional anual por idade é frágil demais para sustentar um excesso padronizado confiável. O método de tendência, justamente por se apoiar apenas nos óbitos observados e nunca tocar a população, é imune a esse problema — e é o que concorda com as estimativas independentes. O 'mais simples' venceu por ser o mais robusto.

Excesso de mortalidade no Brasil por método (óbitos)
PeríodoTendência (publicado)Padronizado (projeção)Padronizado (reescalado)
2020–2021643.482503.913510.243
2022144.54136.182121.406
202348.065−88.267−24.681
2024−9.018−174.699−134.195
2020–2024827.070277.129472.774

As duas variantes padronizadas por idade usam a projeção IBGE 2018 (cru e reescalado ao total pós-Censo). Reprodutível em scripts/sensibilidade_excesso_idade.py. Elaboração: Saúde em Dado.

Por que isso importa além do número

Este episódio é um argumento a favor da transparência metodológica como método. Não escolhemos o baseline que dava o número mais impressionante nem o mais sofisticado; escolhemos o que sobrevive ao escrutínio, e publicamos a comparação inteira — inclusive o script que qualquer pessoa pode rodar para reproduzir a tabela.

Para quem lê indicadores de saúde, a lição é prática: desconfie de 'excesso persistente' e de qualquer número de excesso sem saber como o esperado foi construído. A escolha do baseline pode mudar a conclusão em centenas de milhares de vidas — e, no limite, inverter o sinal.

Referências e fontes

  1. Saúde em Dado. mart_excesso_uf_mes (baseline por tendência 2015–2019) e scripts/sensibilidade_excesso_idade.py. saudeemdado.com/metodologia.
  2. Karlinsky A., Kobak D. Excess mortality during the COVID-19 pandemic: World Mortality Dataset. eLife, 2021.
  3. IBGE. Censo Demográfico 2022; Projeções da População (revisão 2018). SIDRA.
  4. Organização Mundial da Saúde. Global excess deaths associated with COVID-19, 2020–2021.
Como citar: Pedro Fernandes. 643 mil, não 702 mil: como a escolha do baseline muda a história da pandemia. Saúde em Dado, junho de 2026. Disponível em: https://saudeemdado.com/artigos/643-mil-nao-702-mil-baseline-excesso-mortalidade/. Dados: DataSUS e IBGE (domínio público).

Sobre o autor

Pedro Fernandes

  • · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
  • · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
  • · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)

Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.