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O que os indicadores não comparam: quatro achados, um mesmo erro

Excesso de mortalidade, ICSAP, cobertura da atenção primária e mortalidade hospitalar ajustada. Quatro indicadores, quatro fontes, quatro métodos — e, em todos, o ajuste aparente esconde o mesmo efeito estrutural.

PF

Pedro Fernandes

19 de julho de 2026 · 14 min de leitura

Resumo

Ao longo da construção desta plataforma, quatro indicadores independentes falharam pela mesma razão. O excesso de mortalidade padronizado por idade subestima o pico pandêmico em ~138 mil óbitos porque o denominador populacional está quebrado. O ICSAP mede apenas a rede SUS, num país onde a cobertura privada varia com a renda. A cobertura potencial da atenção primária satura acima de 100% em 86% dos municípios e correlaciona-se com o porte (ρ = −0,54), não com internações evitáveis (ρ = +0,004). E o HSMR, mesmo calibrado a 1,0000, penaliza hospitais grandes: os classificados acima do esperado são quase 5× maiores que os abaixo. O padrão comum não é o denominador em si — é a ilusão de que um indicador ajustado já é comparável.

Indicadores de saúde existem para permitir comparação. Sem eles, cada município e cada hospital é um caso isolado; com eles, é possível perguntar quem está melhor, quem piorou, onde intervir. Todo o esforço técnico da epidemiologia descritiva — padronizar por idade, calcular por 100 mil habitantes, ajustar por perfil de casos — serve a esse propósito: tornar comparável o que não é diretamente comparável.

Este artigo é sobre as vezes em que esse esforço falha silenciosamente. Não falha produzindo erro visível: falha produzindo um número plausível, bem-formatado, aparentemente ajustado — que mede outra coisa. Reunimos aqui quatro casos independentes encontrados na construção desta plataforma. Não foram procurados; apareceram quando cada indicador foi testado antes de publicar.

Caso 1 — O excesso de mortalidade e a população que não existia

Para medir quantas pessoas morreram a mais na pandemia, a recomendação metodológica corrente é padronizar por idade: aplicar taxas por faixa etária à estrutura populacional de cada ano. É o método mais sofisticado disponível, e deveria ser o melhor.

No Brasil de 2020–2024, ele produz ~505 mil óbitos em excesso no pico pandêmico. O método simples — regressão de tendência sobre os óbitos observados, sem tocar em população — produz 643 mil, valor compatível com as estimativas internacionais independentes (~660–680 mil). O método sofisticado erra para menos em cerca de 138 mil mortes.

A causa não está no método, está no insumo. A projeção populacional do IBGE de 2018 superestimava a população brasileira; o Censo 2022 a revisou para baixo em milhões de pessoas, e a série pós-Censo introduz uma descontinuidade em 2022. Uma população idosa inflada infla o número esperado de óbitos e, portanto, apaga o excesso. Reconciliamos o denominador interpolando os Censos de 2010 e 2022 — o excesso subiu para ~530 mil, mas não convergiu. Parte do problema era o dado; parte era metodológica.

A lição: um método que depende de um denominador herda toda a fragilidade desse denominador — e não avisa quando ela está presente.

Caso 2 — O ICSAP e o denominador que só enxerga metade do país

As Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (ICSAP) medem internações que bom acesso à atenção básica poderia ter evitado. É um dos melhores indicadores-proxy de qualidade da porta de entrada do SUS, usado em pesquisa e em avaliação de política pública.

O problema é que ele é calculado sobre o SIH, que registra apenas internações pagas pelo SUS. Cerca de um quarto da população brasileira tem plano de saúde — e essa fração não é distribuída ao acaso: concentra-se em municípios mais ricos e urbanos. Um município com alta cobertura privada terá ICSAP baixo simplesmente porque parte de seus moradores se interna fora do SUS, sem que sua atenção básica seja melhor.

Aqui o denominador não está errado, está incompleto — e o viés não é aleatório, é correlacionado com renda. Comparar ICSAP entre municípios de perfis socioeconômicos diferentes sem levar isso em conta produz um ranking que mede, em parte, quem tem plano de saúde.

Caso 3 — A cobertura da atenção primária que mede tamanho

Este é o caso mais recente e o mais surpreendente. O Ministério da Saúde publica mensalmente a cobertura potencial da Atenção Primária por município: capacidade instalada das equipes credenciadas dividida pela população. É um dado atual (jan/2021 a mai/2026), granular e oficialmente mantido.

A hipótese natural é que mais cobertura signifique menos internações evitáveis. Testamos. A correlação bruta entre cobertura potencial e ICSAP por 100 mil habitantes é ρ = +0,004 — indistinguível de zero, e no sinal contrário ao esperado. Controlando porte populacional e vulnerabilidade social, ρ parcial = +0,018. A associação simplesmente não existe.

O motivo aparece ao estratificar por porte. Como a capacidade de cada equipe é padronizada, um município pequeno satura o indicador com poucas equipes: a cobertura ultrapassa 100% em 86% dos municípios brasileiros e chega a 800%. Nos municípios com menos de 10 mil habitantes, a cobertura mediana é 167% e 97% deles estão saturados. Nos com mais de 200 mil, a cobertura mediana é 78,7% e apenas 13% saturam.

A correlação entre cobertura e população é ρ = −0,54. Ou seja: a maior parte da variação do indicador entre municípios não informa sobre a atenção primária — informa sobre quantos habitantes o município tem. E os municípios de maior cobertura são justamente os de maior ICSAP, o oposto da hipótese de política pública.

Cobertura potencial da APS e ICSAP por porte municipal (2024)
PorteMunicípiosCobertura medianaSaturados (>100%)ICSAP/100 mil (mediana)
< 10 mil hab.2.466167,1%97%1.468
10–50 mil2.429142,0%88%1.546
50–200 mil51797,1%46%1.220
> 200 mil15878,7%13%960

Se a cobertura potencial medisse força da atenção primária, o gradiente de ICSAP seria inverso ao de cobertura. Ele acompanha, na verdade, o porte. Fontes: e-Gestor AB (cobertura) e SIH/DataSUS (ICSAP). Reprodutível em scripts/analise_cobertura_icsap.py. Elaboração: Saúde em Dado.

Caso 4 — O HSMR calibrado que ainda penaliza hospital grande

A mortalidade hospitalar bruta é reconhecidamente injusta: um hospital terciário que recebe os casos mais graves morre mais que uma maternidade, sem que isso signifique pior assistência. A solução clássica é o HSMR — razão entre óbitos observados e esperados, ajustada pelo perfil de casos. Implementamos com padronização indireta por faixa etária × capítulo CID-10, e o resultado calibra perfeitamente: a razão agregada nacional é 1,0000 nos três anos publicados, exatamente como a construção do método exige.

Calibração, porém, não é o mesmo que ausência de viés. Ao classificar os hospitais pelo intervalo de confiança, os que ficam significativamente acima do esperado têm mediana de 5.324 internações; os significativamente abaixo, 1.098. Os hospitais “acima” são quase cinco vezes maiores e concentram 59,7% de todos os óbitos hospitalares do país.

A explicação é o que se chama case-mix residual. Um capítulo da CID-10 é uma categoria larga: o capítulo IX abrange desde hipertensão até cirurgia cardíaca complexa. Ajustar por capítulo remove a diferença entre um hospital de partos e um de cardiologia, mas não remove a diferença entre dois hospitais de cardiologia — um que faz consulta e outro que faz transplante. Os grandes centros concentram a gravidade dentro de cada capítulo, e o ajuste não a enxerga.

O indicador continua útil: um HSMR alto com intervalo estreito é uma hipótese que merece investigação. O que ele não suporta é ranking. E note que a solução — ajustar por procedimento, gravidade ou comorbidade — exigiria dados que a AIH pública não traz.

O padrão comum

Os quatro casos não compartilham a mesma fonte, o mesmo método nem o mesmo tipo de erro. O que compartilham é a estrutura da falha: em cada um, uma variável estrutural — tamanho da população, tamanho do município, tamanho do hospital, cobertura privada — atravessa o indicador e sobrevive ao ajuste que deveria neutralizá-la.

Isso importa porque o ajuste produz confiança. Uma taxa padronizada por idade parece mais comparável que uma taxa bruta; um HSMR parece mais justo que a mortalidade bruta; uma cobertura percentual parece independente de escala justamente por ser percentual. Em todos esses casos, a aparência de ajuste é o que torna o erro difícil de detectar: o número passa no teste do olhar.

A implicação prática não é abandonar indicadores ajustados — é testá-los contra o confundidor estrutural óbvio antes de publicá-los. Nos quatro casos aqui, o teste custou poucas linhas de código: correlacionar o indicador com o tamanho. Quando essa correlação é forte, o indicador está medindo escala, não desempenho.

Os quatro casos e a variável estrutural que sobrevive ao ajuste
IndicadorAjuste aplicadoVariável que sobreviveEfeito medido
Excesso de mortalidadePadronização por idadeErro do denominador populacional−138 mil óbitos no pico pandêmico
ICSAPTaxa por 100 mil hab.Cobertura privada (fora do SIH)Viés correlacionado com renda
Cobertura da APSPercentual da populaçãoPorte do municípioρ = −0,54 com população; +0,004 com ICSAP
HSMRPadronização indireta (idade × capítulo)Tamanho e complexidade do hospital“Acima do esperado” são ~5× maiores

Elaboração: Saúde em Dado, a partir dos marts públicos do projeto.

O que fizemos com isso

Nenhum dos quatro indicadores foi retirado da plataforma. Todos continuam publicados — com o teste, o número e a limitação no mesmo lugar em que está o resultado. O excesso de mortalidade usa o método de tendência, e a análise de sensibilidade que o justifica está publicada. O ICSAP traz o aviso de cobertura suplementar junto ao ranking. A cobertura da APS ganhou uma página que explica, antes de qualquer tabela, para que ela serve e para que não serve. E o HSMR passou a exibir intervalo de confiança em vez de uma flag binária: um hospital com HSMR 5,94 e intervalo [0,13 – 27,86] deixa de parecer um alarme e passa a ser o que é — um hospital pequeno demais para se afirmar qualquer coisa.

Há um argumento mais amplo aqui, sobre o que significa publicar um indicador. Um número acompanhado da sua limitação é mais útil que o mesmo número sozinho, mesmo quando a limitação enfraquece a conclusão — porque a alternativa não é uma conclusão mais forte, é uma conclusão errada que ninguém detectou.

Referências e fontes

  1. Saúde em Dado. Análise de sensibilidade do excesso de mortalidade: scripts/sensibilidade_excesso_idade.py e scripts/reconciliacao_denominador.py.
  2. Saúde em Dado. Cobertura da APS × ICSAP: scripts/analise_cobertura_icsap.py; marts mart_cobertura_aps_municipio e mart_cobertura_icsap_municipio.
  3. Saúde em Dado. IC95% do HSMR (gamma/Poisson exato): scripts/hsmr_intervalo_confianca.py.
  4. Brasil, Ministério da Saúde. Relatório público de Cobertura da Atenção Primária (e-Gestor AB). relatorioaps.saude.gov.br.
  5. IBGE. Censo Demográfico 2022; Projeções da População (revisão 2018). SIDRA.
  6. Jarman B. et al. Explaining differences in English hospital death rates using routinely collected data. BMJ, 1999.
  7. Karlinsky A., Kobak D. Excess mortality during the COVID-19 pandemic: World Mortality Dataset. eLife, 2021.
Como citar: Pedro Fernandes. O que os indicadores não comparam: quatro achados, um mesmo erro. Saúde em Dado, julho de 2026. Disponível em: https://saudeemdado.com/artigos/o-que-os-indicadores-nao-comparam/. Dados: DataSUS e IBGE (domínio público).

Sobre o autor

Pedro Fernandes

  • · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
  • · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
  • · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)

Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.