SSaúde Pública BR
← Análises
hospitalarHSMRSIHcase-mixprevisão de demandaarquitetura

Visão hospitalar: o que há de novo no Saúde em Dado, e como a plataforma inteira funciona

HSMR, permanência esperada e previsão de demanda por estabelecimento (CNES), com três anos de SIH e uma regra simples: nenhum indicador é publicado sem declarar, com o mesmo destaque, o que ele não pode responder.

PF

Pedro Fernandes

15 de julho de 2026 · 12 min de leitura

Resumo

Descrevemos a plataforma Saúde em Dado — cinco sistemas do DataSUS, pipeline aberto, API pública gratuita — e detalhamos seu módulo mais recente: a Visão Hospitalar. Por estabelecimento (CNES), publicamos mortalidade ajustada por case-mix (HSMR, padronização indireta), tempo de permanência esperado por diagnóstico e uma projeção de demanda mensal. Com três anos de SIH (2022–2024, 14.197 registros hospital-ano), o HSMR agregado calibra em 1,0000 nos três anos — a prova estrutural de que a padronização está correta — e a confiança do forecast salta de 0% para 92,3% de previsões 'adequadas' ao passar de 12 para 36 meses de histórico. Também explicamos, com a mesma ênfase, o que a plataforma deliberadamente não calcula: risco de readmissão por paciente, porque a AIH pública não tem identificador estável de indivíduo.

O que é o Saúde em Dado

Saúde em Dado é uma plataforma aberta e de custo zero que transforma microdados do DataSUS e do IBGE em indicadores municipais e hospitalares validados, com pipeline integralmente reprodutível. Integra cinco sistemas de informação: SIM (mortalidade, 2015–2024, mais de 13 milhões de óbitos), SIH (internações hospitalares, 2022–2024), SINAN (dengue, 2015–2024), SINASC (nascimentos, 2021–2023) e as bases de população e malha do IBGE.

A arquitetura é deliberadamente simples: agregação local (DuckDB), publicação apenas de marts já agregados — nunca microdado individual —, API REST automática (PostgREST/Supabase) e um site estático servido por CDN. Nenhuma peça dessa pilha tem custo de manutenção, o que é uma escolha metodológica tanto quanto técnica: projetos de dados abertos costumam morrer quando acaba o financiamento ou o tempo do mantenedor. Detalhes da arquitetura estão em outro artigo desta seção; aqui o foco é o módulo mais novo.

A lacuna: dado por município não é dado por hospital

Até aqui, a plataforma descrevia internações por município — volume, permanência média, mortalidade bruta, custo — e uma visão hospitalar (CNES) com esses mesmos agregados brutos. Mortalidade bruta, porém, é enganosa quando se compara hospitais: um terciário de alta complexidade internando casos graves tem mortalidade maior que uma maternidade, sem que isso signifique pior assistência. Faltava um ajuste pelo perfil de caso — o que a literatura de gestão hospitalar chama de case-mix.

A Visão Hospitalar (saudeemdado.com/hospitalar) fecha essa lacuna com três indicadores por estabelecimento: mortalidade ajustada (HSMR), permanência esperada por diagnóstico (LOS) e uma projeção de demanda mensal — todos derivados do mesmo SIH já publicado, sem coleta adicional.

HSMR: padronização indireta, não opinião

HSMR (Hospital Standardized Mortality Ratio) é a razão entre óbitos observados e óbitos esperados de um hospital, dado seu perfil de casos. Calculamos o esperado por padronização indireta: para cada estrato definido por faixa etária (9 faixas, de menor de 1 ano a 80+) e capítulo CID-10 (22 capítulos), obtemos a taxa de mortalidade nacional daquele estrato e a aplicamos ao volume de internações do hospital no mesmo estrato. A soma desses óbitos esperados por estrato é o denominador; HSMR = observado / esperado.

A interpretação é direta: HSMR acima de 1 indica mortalidade acima do esperado para aquele case-mix; abaixo de 1, o inverso. Não é veredito de qualidade assistencial — é um ponto de partida para investigação, exatamente como o método é usado por sistemas de saúde que o publicam há décadas (Reino Unido, Canadá).

Por construção, a soma nacional de óbitos observados sobre a soma nacional de óbitos esperados converge a 1,0000 — é a verificação estrutural do método, não uma coincidência. Rodamos essa checagem para os três anos disponíveis antes de publicar cada um, e o resultado é exato:

HSMR agregado nacional, por ano (verificação de calibração)
AnoHospitais (≥12 intern.)Óbitos observadosÓbitos esperadosHSMR agregadoInstáveis (esp. < 5)
20224.757605.517605.514,61,0000412 (8,7%)
20234.701588.626588.617,91,0000439 (9,3%)
20244.739622.222622.215,21,0000457 (9,6%)

Fonte: mart_hsmr_hospital. 'Instáveis' são hospitais com óbitos esperados < 5 — sinalizados com ⚠ na tabela pública, nunca ocultados. Elaboração: Saúde em Dado.

O limiar de instabilidade: por que 5, não 20

Quando o número esperado de óbitos é pequeno, a razão observado/esperado fica hipersensível a um único caso a mais — um hospital com 0,2 óbitos esperados e 1 óbito observado produz HSMR de 5, um número tecnicamente correto e estatisticamente inútil. A regra geral de epidemiologia para razões padronizadas marca essa fronteira em esperado < 5, ponto em que o intervalo de confiança exato de Poisson deixa de ser confiável.

Estudos específicos de HSMR por vezes usam um corte mais conservador — 20 óbitos esperados — mas nesses estudos o hospital é excluído do relatório. Optamos por não excluir: hospitais pequenos continuam na tabela pública, apenas marcados como instáveis (entre 8,7% e 9,6% do total, conforme o ano). É a mesma lógica já aplicada aos municípios pequenos nas taxas de mortalidade da plataforma — sinalizar a incerteza, não apagar o dado.

Um exemplo real ilustra o mecanismo: em 2024, um hospital de Castanhal (PA) registrou HSMR de 22,38 com apenas 0,04 óbitos esperados e 1 óbito observado — marcado ⚠ corretamente. No mesmo ano, um hospital do Rio de Janeiro com 132,7 óbitos esperados (base grande, estável) registrou HSMR de 7,45 — um sinal que já merece investigação por não depender de um único caso.

Permanência esperada (LOS): mediana do hospital vs. mediana nacional

Para cada diagnóstico (CID-10, 3 caracteres), calculamos a mediana nacional de dias de internação e comparamos à mediana do próprio hospital para o mesmo diagnóstico. Por volume — mais de 248 mil combinações hospital×diagnóstico nos três anos —, não guardamos a duração individual de cada internação: a mediana é aproximada por um histograma de oito faixas de dias (0–1, 2–3, 4–7, 8–14, 15–21, 22–30, 31–60, 61+), tomando o ponto médio da faixa onde a frequência acumulada cruza 50%. É uma aproximação declarada, não a mediana exata.

O desvio (hospital − nacional) revela padrões clinicamente interpretáveis, não ruído: em 2024, hospitais com maior desvio positivo concentraram-se em condições que legitimamente exigem internação prolongada — epilepsia (G40) e transtornos psiquiátricos (F09, F23, F32) em unidades especializadas, com desvios de +40 a +70 dias sobre a mediana nacional. O indicador não classifica hospitais como 'bons' ou 'ruins'; localiza onde a permanência foge do padrão para investigação qualificada.

Previsão de demanda: por que 36 meses mudam tudo

O terceiro indicador projeta a demanda mensal de cada hospital por tendência linear sobre a série observada — o mesmo método já usado no excesso de mortalidade da plataforma (regressão sobre a série histórica, projetada adiante), aqui aplicado por estabelecimento em vez de por UF. A faixa de incerteza é a previsão ± 1,96 desvio-padrão dos resíduos do ajuste — uma faixa indicativa, não um intervalo de predição formal.

O SIH hospitalar (nível CNES) originalmente só cobria 2024. Um forecast sobre 12 pontos mensais é estatisticamente frágil, e declaramos isso: toda previsão nascia marcada confiança 'baixa'. Estendemos o reprocessamento para 2022 e 2023 — com verificação de calibração do HSMR (tabela acima) confirmando a correção de cada ano antes do envio — e a série de demanda passou de 12 para 36 meses por hospital. O efeito na confiança do forecast foi imediato:

Confiança do forecast de demanda, antes e depois da extensão a 3 anos
SituaçãoMeses de históricoPrevisões 'adequada'Previsões 'baixa'
Antes (só 2024)até 120 (0%)13.902 (100%)
Depois (2022–2024)até 3613.419 (92,3%)1.125 (7,7%)

Limiar: confiança 'adequada' a partir de 24 meses de histórico contínuo. Fonte: mart_forecast_demanda_hospital, 14.544 previsões / 4.848 hospitais. Elaboração: Saúde em Dado.

O que esta página deliberadamente não faz

Não estimamos risco de readmissão ou reinternação por paciente. A AIH pública não tem identificador estável de indivíduo — o CNS é removido dos microdados por exigência da LGPD —, o que significa que ligar duas internações à mesma pessoa exigiria um dado que simplesmente não é público. Ferramentas que oferecem esse indicador a partir de dado aberto do DataSUS, ou têm acesso a dado institucional privado (prontuário, com identificador de paciente) que o Saúde em Dado nunca terá por desenho, ou estão publicando uma aproximação sem essa base.

Preferimos declarar a limitação, com o mesmo destaque dado aos resultados, a produzir uma métrica que pareça precisa sem sustentação nos dados abertos. É o mesmo princípio já aplicado ao excesso de mortalidade (ver 'Por que isso importa além do número' em outro artigo desta seção) e à taxa padronizada em municípios pequenos: honestidade metodológica não é um adendo, é a condição para que o número seja citável.

Acesso e reprodutibilidade

Os quatro marts descritos aqui (mart_hsmr_hospital, mart_los_hospital, mart_demanda_mensal_hospital, mart_forecast_demanda_hospital) são públicos via API REST sem cadastro, com download em Parquet e checksum SHA-256, sob CC BY 4.0. O código dos pipelines é aberto (MIT) — scripts/pipeline_sih_hospitalar.py e scripts/forecast_demanda_hospitalar.py — e cada número desta análise pode ser regenerado a partir dos arquivos originais do SIH/DataSUS. Um agente MCP publicado no PyPI (saudeemdado-mcp) permite consultar os mesmos indicadores em linguagem natural, com cada resposta citando a fonte.

Referências e fontes

  1. Saúde em Dado. mart_hsmr_hospital, mart_los_hospital, mart_demanda_mensal_hospital, mart_forecast_demanda_hospital. saudeemdado.com/hospitalar.
  2. Brasil, Ministério da Saúde / DATASUS. SIH — Sistema de Informações Hospitalares (AIH aprovadas), 2022–2024.
  3. Jarman B. et al. Explaining differences in English hospital death rates using routinely collected data. BMJ, 1999 (método HSMR original).
  4. Canadian Institute for Health Information. Hospital Standardized Mortality Ratio (HSMR): Methodology Notes.
  5. Saúde em Dado. Inteligência epidemiológica a custo zero: a arquitetura por trás da plataforma. saudeemdado.com/artigos.
Como citar: Pedro Fernandes. Visão hospitalar: o que há de novo no Saúde em Dado, e como a plataforma inteira funciona. Saúde em Dado, julho de 2026. Disponível em: https://saudeemdado.com/artigos/visao-hospitalar-hsmr-los-forecast/. Dados: DataSUS e IBGE (domínio público).

Sobre o autor

Pedro Fernandes

  • · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
  • · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
  • · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)

Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.