SSaúde em Dado
← Análises
mortalidadeCID-10transição epidemiológica

As principais causas de morte no Brasil pela CID-10

Doenças do coração lideram, seguidas por neoplasias e causas respiratórias. Uma leitura das categorias que mais matam e do que elas revelam sobre transição epidemiológica.

PF

Pedro Fernandes

26 de fevereiro de 2026 · 6 min de leitura

Resumo

Classificando os óbitos de 2024 (1,53 milhão) pelos capítulos e categorias da CID-10, descrevemos o perfil de causas do Brasil contemporâneo: as doenças do aparelho circulatório respondem por 26,0% das mortes, seguidas de neoplasias (17,3%) e respiratórias (12,7%). No nível de categoria, o infarto (I21) lidera — e as causas mal definidas (R99) aparecem em quinto, um alerta sobre a qualidade do registro.

Dados e métodos

Fonte: SIM/DataSUS, óbitos não fetais de 2024 (1.532.015 no total), classificados pela causa básica em capítulos (I–XXII) e categorias de 3 caracteres da CID-10. Percentuais calculados sobre o total de óbitos com capítulo definido. O ano foi recoletado dos arquivos .dbc do FTP em setembro de 2026: o CSV do OpenDataSUS que servia de fonte trazia 105.669 óbitos a menos, com 63% de dezembro ausente.

A CID-10 organiza a causa básica em 22 capítulos e milhares de categorias. Mapear essa distribuição desenha o perfil do que mata no Brasil — e revela o grau de transição epidemiológica.

O perfil por capítulo (2024)

As doenças do aparelho circulatório lideram com folga (um quarto das mortes), seguidas de neoplasias e respiratórias. É a assinatura de um país que completou, em grande medida, a transição epidemiológica — as crônicas não transmissíveis suplantaram as infecciosas. Duas exceções pedem leitura crítica: as causas externas (10,4%), marcador de violência e trânsito; e o capítulo XVIII (mal definidas, 4,5%), que não é uma 'doença', mas um indicador inverso da qualidade da informação.

Óbitos por capítulo CID-10 — Brasil, 2024 (oito maiores)
CapítuloÓbitos% do total
IX — Aparelho circulatório398.60526,0
II — Neoplasias264.84517,3
X — Aparelho respiratório194.06312,7
XX — Causas externas159.53410,4
IV — Endócrinas/metabólicas90.1785,9
XI — Aparelho digestivo81.5435,3
I — Infecciosas e parasitárias75.3704,9
XVIII — Sintomas e sinais mal definidos69.0884,5

Fonte: SIM/DataSUS, 2024 consolidado (arquivos .dbc do FTP, recoletados em setembro de 2026). Elaboração: Saúde em Dado.

Do capítulo à categoria específica

Descer ao nível de 3 caracteres é ainda mais revelador. O infarto agudo do miocárdio (I21) lidera isoladamente, seguido da pneumonia (J18), da DPOC (J44) e do diabetes (E14). O achado que merece vigilância vem em quinto: R99 (causas mal definidas), com quase 42 mil óbitos — sinal de que, para uma fração relevante das mortes, sequer sabemos a causa. Hipertensão (I10), AVC (I64) e neoplasia de pulmão (C34) completam o topo, confirmando o peso cardiometabólico e respiratório.

Categorias CID-10 (3 caracteres) mais frequentes — Brasil, 2024
CategoriaDescriçãoÓbitos
I21Infarto agudo do miocárdio94.248
J18Pneumonia76.950
J44DPOC49.787
E14Diabetes mellitus44.572
R99Causas mal definidas41.829
I10Hipertensão essencial35.189
I64AVC (não especificado)33.721
C34Neoplasia de brônquios/pulmão32.465
I50Insuficiência cardíaca31.988
N39Transtornos do trato urinário31.139

Fonte: SIM/DataSUS, 2024 consolidado. R99 não é doença: é ausência de diagnóstico. Elaboração: Saúde em Dado.

Por que mapear causas importa (e suas limitações)

O perfil de causas orienta prioridades — prevenção cardiovascular, rastreamento de câncer, manejo de crônicas respiratórias — e, disponibilizado por município/ano/sexo, aproxima o planejamento da realidade local em vez de aplicar médias nacionais a contextos heterogêneos.

Limitações: as causas mal definidas (R99 e capítulo XVIII) não são redistribuídas, o que subestima levemente as causas específicas onde o registro é pior (Norte/Nordeste); e a causa básica, embora padronizada, depende da qualidade do preenchimento da declaração de óbito.

Uma nota sobre a versão do dado. Este artigo foi refeito em setembro de 2026, quando 2024 passou de preliminar a consolidado. A diferença não foi só de volume — 105.669 óbitos a mais —, foi de CLASSIFICAÇÃO: comparando as duas versões, R99 perdeu 6.944 registros e Y34 outros 2.993, enquanto I21 ganhou 7.948 e J44, 4.641. A consolidação é o serviço de investigação de óbito convertendo causa mal definida em diagnóstico específico. Por isso o percentual de mal definidas caiu de 5,4% para 4,5% e R99 saiu do terceiro para o quinto lugar. Dado preliminar não superestima só o que falta; superestima a imprecisão.

Referências e fontes

  1. OMS. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). 10ª rev.
  2. Saúde em Dado. mart_mortalidade_causa e mart_mortalidade_uf_mes (v3.1.0). saudeemdado.com.
  3. Schramm JMA et al. Transição epidemiológica e o estudo de carga de doença no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 2004.
  4. GBD Brazil Collaborators. Burden of disease in Brazil, 1990–2016. The Lancet, 2018.
Como citar: Pedro Fernandes. As principais causas de morte no Brasil pela CID-10. Saúde em Dado, fevereiro de 2026. Disponível em: https://saudeemdado.com/artigos/principais-causas-de-morte-brasil-cid10/. Dados: DataSUS e IBGE (domínio público).

Sobre o autor

Pedro Fernandes

  • · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
  • · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
  • · Diretor de Tecnologia da Informação — Setor Público (SP)

Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.