As principais causas de morte no Brasil pela CID-10
Doenças do coração lideram, seguidas por neoplasias e causas respiratórias. Uma leitura das categorias que mais matam e do que elas revelam sobre transição epidemiológica.
Resumo
Classificando os óbitos de 2024 (1,43 milhão) pelos capítulos e categorias da CID-10, descrevemos o perfil de causas do Brasil contemporâneo: as doenças do aparelho circulatório respondem por 25,7% das mortes, seguidas de neoplasias (17,1%) e respiratórias (13,0%). No nível de categoria, o infarto (I21) lidera — mas as causas mal definidas (R99) aparecem em terceiro, um alerta sobre a qualidade do registro.
Dados e métodos
Fonte: SIM/DataSUS, óbitos não fetais de 2024 (1.426.346 no total), classificados pela causa básica em capítulos (I–XXII) e categorias de 3 caracteres da CID-10. Percentuais calculados sobre o total de óbitos com capítulo definido.
A CID-10 organiza a causa básica em 22 capítulos e milhares de categorias. Mapear essa distribuição desenha o perfil do que mata no Brasil — e revela o grau de transição epidemiológica.
O perfil por capítulo (2024)
As doenças do aparelho circulatório lideram com folga (um quarto das mortes), seguidas de neoplasias e respiratórias. É a assinatura de um país que completou, em grande medida, a transição epidemiológica — as crônicas não transmissíveis suplantaram as infecciosas. Duas exceções pedem leitura crítica: as causas externas (10%), marcador de violência e trânsito; e o capítulo XVIII (mal definidas, 5,4%), que não é uma 'doença', mas um indicador inverso da qualidade da informação.
| Capítulo | Óbitos | % do total |
|---|---|---|
| IX — Aparelho circulatório | 365.952 | 25,7 |
| II — Neoplasias | 243.935 | 17,1 |
| X — Aparelho respiratório | 184.926 | 13,0 |
| XX — Causas externas | 143.547 | 10,1 |
| IV — Endócrinas/metabólicas | 80.291 | 5,6 |
| XVIII — Sintomas e sinais mal definidos | 77.657 | 5,4 |
| XI — Aparelho digestivo | 75.232 | 5,3 |
| I — Infecciosas e parasitárias | 72.382 | 5,1 |
Fonte: SIM/DataSUS, 2024 preliminar. Elaboração: Saúde em Dado.
Do capítulo à categoria específica
Descer ao nível de 3 caracteres é ainda mais revelador. O infarto agudo do miocárdio (I21) lidera isoladamente, seguido da pneumonia (J18). O achado que merece vigilância é o terceiro lugar: R99 (causas mal definidas), com quase 49 mil óbitos — sinal de que, para uma fração relevante das mortes, sequer sabemos a causa. DPOC (J44), diabetes (E14), AVC (I64), insuficiência cardíaca (I50) e hipertensão (I10) completam o topo, confirmando o peso cardiometabólico e respiratório.
| Categoria | Descrição | Óbitos |
|---|---|---|
| I21 | Infarto agudo do miocárdio | 86.300 |
| J18 | Pneumonia | 74.676 |
| R99 | Causas mal definidas | 48.773 |
| J44 | DPOC | 45.146 |
| E14 | Diabetes mellitus | 40.142 |
| I64 | AVC (não especificado) | 32.455 |
| I50 | Insuficiência cardíaca | 31.598 |
| I10 | Hipertensão essencial | 31.055 |
| C34 | Neoplasia de brônquios/pulmão | 29.822 |
| N39 | Transtornos do trato urinário | 28.719 |
Fonte: SIM/DataSUS, 2024 preliminar. R99 não é doença: é ausência de diagnóstico. Elaboração: Saúde em Dado.
Por que mapear causas importa (e suas limitações)
O perfil de causas orienta prioridades — prevenção cardiovascular, rastreamento de câncer, manejo de crônicas respiratórias — e, disponibilizado por município/ano/sexo, aproxima o planejamento da realidade local em vez de aplicar médias nacionais a contextos heterogêneos.
Limitações: 2024 é preliminar; as causas mal definidas (R99 e capítulo XVIII) não são redistribuídas, o que subestima levemente as causas específicas onde o registro é pior (Norte/Nordeste); e a causa básica, embora padronizada, depende da qualidade do preenchimento da declaração de óbito.
Referências e fontes
- OMS. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). 10ª rev.
- Saúde em Dado. mart_mortalidade_causa e mart_mortalidade_uf_mes (v3.1.0). saudeemdado.com.
- Schramm JMA et al. Transição epidemiológica e o estudo de carga de doença no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 2004.
- GBD Brazil Collaborators. Burden of disease in Brazil, 1990–2016. The Lancet, 2018.
Sobre o autor
Pedro Fernandes
- · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
- · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
- · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)
Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.