As principais causas de morte no Brasil pela CID-10
Doenças do coração lideram, seguidas por neoplasias e causas respiratórias. Uma leitura das categorias que mais matam e do que elas revelam sobre transição epidemiológica.
Resumo
Classificando os óbitos de 2024 (1,53 milhão) pelos capítulos e categorias da CID-10, descrevemos o perfil de causas do Brasil contemporâneo: as doenças do aparelho circulatório respondem por 26,0% das mortes, seguidas de neoplasias (17,3%) e respiratórias (12,7%). No nível de categoria, o infarto (I21) lidera — e as causas mal definidas (R99) aparecem em quinto, um alerta sobre a qualidade do registro.
Dados e métodos
Fonte: SIM/DataSUS, óbitos não fetais de 2024 (1.532.015 no total), classificados pela causa básica em capítulos (I–XXII) e categorias de 3 caracteres da CID-10. Percentuais calculados sobre o total de óbitos com capítulo definido. O ano foi recoletado dos arquivos .dbc do FTP em setembro de 2026: o CSV do OpenDataSUS que servia de fonte trazia 105.669 óbitos a menos, com 63% de dezembro ausente.
A CID-10 organiza a causa básica em 22 capítulos e milhares de categorias. Mapear essa distribuição desenha o perfil do que mata no Brasil — e revela o grau de transição epidemiológica.
O perfil por capítulo (2024)
As doenças do aparelho circulatório lideram com folga (um quarto das mortes), seguidas de neoplasias e respiratórias. É a assinatura de um país que completou, em grande medida, a transição epidemiológica — as crônicas não transmissíveis suplantaram as infecciosas. Duas exceções pedem leitura crítica: as causas externas (10,4%), marcador de violência e trânsito; e o capítulo XVIII (mal definidas, 4,5%), que não é uma 'doença', mas um indicador inverso da qualidade da informação.
| Capítulo | Óbitos | % do total |
|---|---|---|
| IX — Aparelho circulatório | 398.605 | 26,0 |
| II — Neoplasias | 264.845 | 17,3 |
| X — Aparelho respiratório | 194.063 | 12,7 |
| XX — Causas externas | 159.534 | 10,4 |
| IV — Endócrinas/metabólicas | 90.178 | 5,9 |
| XI — Aparelho digestivo | 81.543 | 5,3 |
| I — Infecciosas e parasitárias | 75.370 | 4,9 |
| XVIII — Sintomas e sinais mal definidos | 69.088 | 4,5 |
Fonte: SIM/DataSUS, 2024 consolidado (arquivos .dbc do FTP, recoletados em setembro de 2026). Elaboração: Saúde em Dado.
Do capítulo à categoria específica
Descer ao nível de 3 caracteres é ainda mais revelador. O infarto agudo do miocárdio (I21) lidera isoladamente, seguido da pneumonia (J18), da DPOC (J44) e do diabetes (E14). O achado que merece vigilância vem em quinto: R99 (causas mal definidas), com quase 42 mil óbitos — sinal de que, para uma fração relevante das mortes, sequer sabemos a causa. Hipertensão (I10), AVC (I64) e neoplasia de pulmão (C34) completam o topo, confirmando o peso cardiometabólico e respiratório.
| Categoria | Descrição | Óbitos |
|---|---|---|
| I21 | Infarto agudo do miocárdio | 94.248 |
| J18 | Pneumonia | 76.950 |
| J44 | DPOC | 49.787 |
| E14 | Diabetes mellitus | 44.572 |
| R99 | Causas mal definidas | 41.829 |
| I10 | Hipertensão essencial | 35.189 |
| I64 | AVC (não especificado) | 33.721 |
| C34 | Neoplasia de brônquios/pulmão | 32.465 |
| I50 | Insuficiência cardíaca | 31.988 |
| N39 | Transtornos do trato urinário | 31.139 |
Fonte: SIM/DataSUS, 2024 consolidado. R99 não é doença: é ausência de diagnóstico. Elaboração: Saúde em Dado.
Por que mapear causas importa (e suas limitações)
O perfil de causas orienta prioridades — prevenção cardiovascular, rastreamento de câncer, manejo de crônicas respiratórias — e, disponibilizado por município/ano/sexo, aproxima o planejamento da realidade local em vez de aplicar médias nacionais a contextos heterogêneos.
Limitações: as causas mal definidas (R99 e capítulo XVIII) não são redistribuídas, o que subestima levemente as causas específicas onde o registro é pior (Norte/Nordeste); e a causa básica, embora padronizada, depende da qualidade do preenchimento da declaração de óbito.
Uma nota sobre a versão do dado. Este artigo foi refeito em setembro de 2026, quando 2024 passou de preliminar a consolidado. A diferença não foi só de volume — 105.669 óbitos a mais —, foi de CLASSIFICAÇÃO: comparando as duas versões, R99 perdeu 6.944 registros e Y34 outros 2.993, enquanto I21 ganhou 7.948 e J44, 4.641. A consolidação é o serviço de investigação de óbito convertendo causa mal definida em diagnóstico específico. Por isso o percentual de mal definidas caiu de 5,4% para 4,5% e R99 saiu do terceiro para o quinto lugar. Dado preliminar não superestima só o que falta; superestima a imprecisão.
Referências e fontes
- OMS. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10). 10ª rev.
- Saúde em Dado. mart_mortalidade_causa e mart_mortalidade_uf_mes (v3.1.0). saudeemdado.com.
- Schramm JMA et al. Transição epidemiológica e o estudo de carga de doença no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 2004.
- GBD Brazil Collaborators. Burden of disease in Brazil, 1990–2016. The Lancet, 2018.
Sobre o autor
Pedro Fernandes
- · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
- · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
- · Diretor de Tecnologia da Informação — Setor Público (SP)
Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.