Internações pelo SUS: para onde vão R$ 63 bilhões
Quase 40 milhões de internações em três anos. Uma leitura do volume, da permanência, da mortalidade hospitalar e do custo por capítulo da CID-10.
Resumo
A partir das Autorizações de Internação Hospitalar (SIH/AIH) de 2022 a 2024 — 39,9 milhões de internações e R$ 63,2 bilhões aprovados —, descrevemos volume, permanência média, mortalidade intra-hospitalar e custo por capítulo da CID-10, evidenciando que o gasto se concentra nas doenças circulatórias e que a mortalidade hospitalar varia de <0,1% (parto) a 13% (infecciosas).
Dados e métodos
Fonte: SIH/SUS — arquivos RD (AIH aprovadas), microdados 2022–2024, processados por município de residência do paciente (MUNIC_RES). Foram contabilizadas 39.883.796 internações no triênio (14.171.364 apenas em 2024), com valor total aprovado de R$ 63,2 bilhões.
Definições: a causa é o capítulo da CID-10 do diagnóstico principal (DIAG_PRINC); a permanência média é a soma de DIAS_PERM dividida pelo número de internações; a mortalidade intra-hospitalar é a razão entre AIH com MORTE=1 e o total; o custo é o valor total aprovado (VAL_TOT). Este artigo detalha o ano de 2024 (preliminar).
Resultados: os oito maiores capítulos (2024)
A tabela ordena, por volume, os oito capítulos que mais internam. Três padrões se destacam: gravidez/parto lidera em volume mas tem a menor permanência, mortalidade e custo; as doenças do aparelho circulatório, embora não sejam o maior volume, concentram o maior gasto (R$ 5,1 bilhões) e um custo médio quase seis vezes o do parto; e as doenças infecciosas apresentam a maior mortalidade intra-hospitalar (13%) e a maior permanência (7,6 dias).
| Capítulo (CID-10) | Internações | Perm. (dias) | Mort. (%) | Custo médio (R$) | Gasto (R$ bi) |
|---|---|---|---|---|---|
| XV — Gravidez, parto e puerpério | 2.115.667 | 2,6 | 0,04 | 610 | 1,29 |
| XIX — Lesões e causas externas | 1.580.034 | 4,9 | 2,09 | 1.457 | 2,30 |
| XI — Aparelho digestivo | 1.501.891 | 3,5 | 2,91 | 1.409 | 2,12 |
| X — Aparelho respiratório | 1.361.054 | 6,0 | 8,89 | 1.467 | 2,00 |
| IX — Aparelho circulatório | 1.333.288 | 6,4 | 8,07 | 3.824 | 5,10 |
| II — Neoplasias | 1.105.852 | 4,4 | 7,29 | 2.490 | 2,75 |
| XIV — Aparelho geniturinário | 1.073.282 | 4,3 | 3,21 | 1.232 | 1,32 |
| I — Infecciosas e parasitárias | 967.291 | 7,6 | 13,04 | 1.910 | 1,85 |
Fonte: SIH/SUS (AIH aprovadas), 2024 preliminar. Mortalidade e custo são brutos, sem ajuste por perfil de casos. Elaboração: Saúde em Dado.
Interpretação para a gestão
A leitura conjunta dos quatro indicadores é o que dá sentido gerencial. Volume alto com baixo custo e baixa mortalidade (parto) indica linha de cuidado de rotina; volume moderado com custo e mortalidade altos (circulatório) sinaliza onde a alocação de recursos e a organização da rede de urgência mais pesam. A plataforma permite reproduzir esta tabela por município e ordenar por qualquer coluna, viabilizando benchmarking entre pares.
Uma ressalva de interpretação: a mortalidade intra-hospitalar bruta reflete fortemente o perfil de casos (case-mix) — um hospital terciário concentra casos graves e, por isso, mortalidade maior, sem que isso signifique pior qualidade. Comparações de mortalidade entre serviços exigem ajuste de risco, que não fazemos aqui.
Limitações
O SIH cobre apenas a rede SUS; como cerca de um quarto da população tem plano privado, concentrado em municípios mais ricos, comparações de internações por habitante entre municípios são confundidas pela cobertura suplementar. A AIH é unidade administrativa, não paciente — reinternações contam múltiplas vezes. O valor aprovado segue a tabela SUS, não o custo econômico real. E 2024 é preliminar.
Referências e fontes
- BRASIL. Ministério da Saúde. SIH/SUS — Autorização de Internação Hospitalar (AIH). Microdados 2022–2024. DATASUS.
- Saúde em Dado. mart_internacoes_municipio (v3.1.0). DOI: 10.5281/zenodo.20706845. saudeemdado.com/internacoes.
- Ministério da Saúde. Manual técnico do SIH/SUS e Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS.
- Iezzoni LI. Risk Adjustment for Measuring Health Care Outcomes. 4ª ed. Health Administration Press, 2013.
Sobre o autor
Pedro Fernandes
- · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
- · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
- · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)
Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.