A epidemia de dengue de 2024: anatomia de um recorde
Com 6,56 milhões de casos prováveis, 2024 foi o maior surto de dengue já registrado no Brasil. O que os microdados do SINAN revelam sobre escala, sazonalidade e letalidade.
Pedro Fernandes
04 de março de 2026 · 7 min de leitura
Resumo
Analisamos 6.564.924 casos prováveis de dengue notificados ao SINAN em 2024, contra uma média de ~1,3 milhão/ano na década anterior. A magnitude do surto, sua concentração no primeiro semestre e a distribuição espacial são examinadas à luz do canal endêmico construído a partir da série 2015–2023.
A dengue é doença de notificação compulsória no Brasil desde a década de 1990, e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) é a sua principal fonte de vigilância. Em 2024, os microdados nacionais registraram 6.564.924 casos prováveis — definidos como notificações não descartadas após investigação — um valor sem precedentes na série histórica.
Para dimensionar o evento, comparamos esse total com os anos anteriores processados nesta plataforma: 2015 (1,62 milhão), 2019 (1,55 milhão) e 2023 (1,65 milhão) figuravam entre os mais intensos até então. O ano de 2024 multiplica por aproximadamente quatro o pior ano prévio recente, configurando não uma flutuação, mas uma ruptura de patamar.
O canal endêmico como termômetro
Para distinguir variação sazonal esperada de surto, construímos um diagrama de controle (canal endêmico): para cada semana epidemiológica, calculamos a mediana e os quartis (P25–P75) dos casos no período 2015–2023. A faixa interquartil define o comportamento esperado; valores acima do P75 sinalizam atividade epidêmica.
Em 2024, a curva observada rompe o limite superior já nas primeiras semanas do ano e permanece acima dele por todo o primeiro semestre, com pico nas semanas de fevereiro a abril — o padrão clássico do verão brasileiro, porém em amplitude inédita. A ferramenta interativa do projeto permite reproduzir esse diagrama para cada unidade federativa.
Gravidade e letalidade
Casos graves (dengue com sinais de alarme ou dengue grave, na classificação vigente) e óbitos pelo agravo acompanham, com defasagem, o volume de casos. Em números absolutos, 2024 registrou a maior quantidade de óbitos da série. Ainda assim, a letalidade — óbitos divididos por casos prováveis — permaneceu baixa, abaixo de 0,1% no agregado nacional, comportamento esperado para a dengue quando há capacidade assistencial preservada.
Essa aparente contradição (recorde de óbitos com baixa letalidade) é estatística e não clínica: quando o denominador cresce de forma explosiva, mesmo letalidades pequenas produzem grandes números absolutos. A leitura correta exige sempre os dois indicadores juntos.
Implicações para a vigilância
A escala de 2024 reacende o debate sobre fatores estruturais — urbanização, saneamento, circulação de sorotipos, El Niño e clima — e sobre a necessidade de sistemas de alerta precoce. A disponibilização dos microdados agregados em formato aberto e consultável, como nesta plataforma, é condição para que pesquisadores e gestores municipais respondam mais rápido na próxima temporada.
Referências e fontes
- BRASIL. Ministério da Saúde. SINAN — Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Microdados de dengue, 2015–2024.
- Saúde em Dado. mart_dengue_semana e mart_dengue_municipio_ano. saudeemdado.com.
- Organização Pan-Americana da Saúde. Diretrizes para diagrama de controle e canal endêmico.
Sobre o autor
Pedro Fernandes
- · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
- · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
- · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)
Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.