A epidemia de dengue de 2024: anatomia de um recorde
Com 6,56 milhões de casos prováveis, 2024 foi o maior surto de dengue já registrado no Brasil. O que os microdados do SINAN revelam sobre escala, sazonalidade e letalidade.
Resumo
Analisamos 6.564.924 casos prováveis de dengue notificados ao SINAN em 2024, contra uma média de ~1,3 milhão/ano na década anterior. A magnitude do surto, sua concentração no primeiro semestre e a distribuição espacial são examinadas à luz do canal endêmico construído a partir da série 2015–2023.
Dados e métodos
Fonte: SINAN — arquivos nacionais DENGBR (bases FINAIS e PRELIM), 2015–2024, por município de residência (ID_MN_RESI) e semana epidemiológica dos primeiros sintomas (SEM_PRI). Caso provável = notificação não descartada após investigação (CLASSI_FIN ≠ 5), convenção da vigilância; óbito por dengue = EVOLUCAO = 2; letalidade = óbitos ÷ casos prováveis.
A dengue é de notificação compulsória desde os anos 1990, e o SINAN é sua principal fonte de vigilância. Em 2024, os microdados nacionais registraram 6.564.924 casos prováveis e 6.337 óbitos — valores sem precedentes na série.
A série 2015–2024
A tabela mostra a magnitude do rompimento de patamar: 2024 multiplica por ~4 o pior ano prévio (2023) e concentra mais óbitos do que os cinco anos anteriores somados. A letalidade sobe para 0,097% — a maior da série —, mas permanece baixa em termos absolutos: o recorde de óbitos é efeito do denominador explosivo, não de piora clínica.
| Ano | Casos prováveis | Óbitos | Letalidade (%) |
|---|---|---|---|
| 2015 | 1.623.172 | 972 | 0,060 |
| 2016 | 1.450.074 | 704 | 0,049 |
| 2017 | 239.395 | 188 | 0,079 |
| 2018 | 262.611 | 203 | 0,077 |
| 2019 | 1.546.252 | 843 | 0,055 |
| 2020 | 975.842 | 587 | 0,060 |
| 2021 | 540.049 | 279 | 0,052 |
| 2022 | 1.405.095 | 1.056 | 0,075 |
| 2023 | 1.645.956 | 1.192 | 0,072 |
| 2024 | 6.564.924 | 6.337 | 0,097 |
Fonte: SINAN/DataSUS (DENGBR). Casos prováveis = CLASSI_FIN ≠ 5. Elaboração: Saúde em Dado.
O canal endêmico como termômetro
Para distinguir variação sazonal esperada de surto, construímos um diagrama de controle (canal endêmico): para cada semana epidemiológica, calculamos a mediana e os quartis (P25–P75) dos casos no período 2015–2023. A faixa interquartil define o comportamento esperado; valores acima do P75 sinalizam atividade epidêmica.
Em 2024, a curva observada rompe o limite superior já nas primeiras semanas do ano e permanece acima dele por todo o primeiro semestre, com pico nas semanas de fevereiro a abril — o padrão clássico do verão brasileiro, porém em amplitude inédita. A ferramenta interativa do projeto permite reproduzir esse diagrama para cada unidade federativa.
Gravidade e letalidade
Casos graves (dengue com sinais de alarme ou dengue grave, na classificação vigente) e óbitos pelo agravo acompanham, com defasagem, o volume de casos. Em números absolutos, 2024 registrou a maior quantidade de óbitos da série. Ainda assim, a letalidade — óbitos divididos por casos prováveis — permaneceu baixa, abaixo de 0,1% no agregado nacional, comportamento esperado para a dengue quando há capacidade assistencial preservada.
Essa aparente contradição (recorde de óbitos com baixa letalidade) é estatística e não clínica: quando o denominador cresce de forma explosiva, mesmo letalidades pequenas produzem grandes números absolutos. A leitura correta exige sempre os dois indicadores juntos.
Implicações para a vigilância
A escala de 2024 reacende o debate sobre fatores estruturais — urbanização, saneamento, circulação de sorotipos, El Niño e clima — e sobre a necessidade de sistemas de alerta precoce. A disponibilização dos microdados agregados em formato aberto e consultável, como nesta plataforma, é condição para que pesquisadores e gestores municipais respondam mais rápido na próxima temporada.
Referências e fontes
- BRASIL. Ministério da Saúde. SINAN — Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Microdados de dengue, 2015–2024.
- Saúde em Dado. mart_dengue_semana e mart_dengue_municipio_ano. saudeemdado.com.
- Organização Pan-Americana da Saúde. Diretrizes para diagrama de controle e canal endêmico.
Sobre o autor
Pedro Fernandes
- · Mestrando em Saúde Coletiva (IAMSPE)
- · Pós-graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Saúde (Hospital Sírio-Libanês)
- · Diretor de Tecnologia da Informação — Prefeitura Municipal de Penápolis (SP)
Pesquisador na interseção entre saúde coletiva, ciência de dados e gestão pública. Concebeu e mantém a plataforma Saúde em Dado.